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GUSTAVO FERNANDO JULIÃO DE SOUZA

SIMBOLIZAÇÃO:

UMA SÍNTESE SÓCIO-ANTROPOLÓGICA E PSICOLÓGICA

ÍNDICE:

 

INTRODUÇÃO

CAPÍTULO I - SIGNIFICAÇÃO E CONHECIMENTO IMEDIATO .....................04

CAPÍTULO II - SOCIALIZAÇÃO .............................................................................09

CAPÍTULO III - CONSCIÊNCIA COLETIVA E CONSCIÊNCIA INDIVIDUAL ..22

CAPÍTULO IV - O SÍMBOLO LINGUÍSTICO E SUA DIFERENCIAÇÃO ............25

CAPÍTULO V - O PROBLEMA DO INCONSCIENTE ............................................32

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ..........................................................................54

 

INTRODUÇÃO:

A idéia de elaborar um trabalho teórico sobre o tema socialização nasceu de uma leitura do livro "A Construção Social da Realidade" de Peter L. Berger e Thomas Luckmann, do qual retirei dois conceitos que julguei bastante importantes. O primeiro versa sobre a origem das instituições sociais a partir de ações habituais humanas e o segundo se refere à definição de atores e papéis sociais. A partir desses conceitos, considerei possível desenvolver uma teoria sobre a origem das instituições sociais sob o ponto de vista da simbolização e para tal empreendimento contei também com a definição básica de Ernst Cassirer a respeito da mediação do sensível pelo simbólico. Comecei, então a empresa por uma parte que denominei "Significação e Conhecimento Imediato", onde procurei estabelecer e definir conceitos que levassem à compreensão essencial dos aspectos mais minuciosos e íntimos do fenômeno da simbolização. Isso foi realizado deliberadamente de modo sumário e sintético através da apresentação dos postulados teóricos fundamentais e necessários para a compreensão de tudo o que viria a ser exposto e discutido posteriormente. Porém, à medida que refletia sobre a aplicação desses postulados teóricos no processo de socialização, considerei que poderia fazer algo mais extenso e que conseguisse abranger outras áreas do conhecimento, especialmente Psicologia Analítica e Psiquiatria através da aplicação do conceito de inconsciente. As idéias foram se sucedendo e se encadeando umas às outras e no final estava diante de um trabalho norteado exclusivamente por aquilo que conhecemos pelo nome de simbolização e que, na realidade, é a verdadeira infraestrutura teórica de tudo o que foi tratado neste ensaio. Tornou-se necessário, desse modo, fazer o esclarecimento mais completo possível a respeito do referido fenômeno e, com efeito, foi o que tentei realizar através da síntese e conciliação dos vários elementos teórico-conceituais pertencentes aos campos de estudo da Antropologia Filosófica, Antropologia Cultural e Social e Filosofia. O maior desafio presente nessa tarefa consistiu na tentativa de compreensão do mecanismo do inconsciente à luz das minhas concepções sobre o fenômeno da simbolização e, felizmente, para minha satisfação, tanto uma como a outra área de indagações foram elucidadas de maneira coerente e satisfatória. Dessa forma, tanto as concepções teóricas sobre o fenômeno da simbolização quanto o entendimento relativo ao mecanismo do inconsciente calcado naquelas, ficaram mais sólidas e fortalecidas, pois provaram a sua consistência e viabilidade por si mesmas, reciprocamente. Cabe, ainda, esclarecer que empreguei o termo dialético no sentido lato e não no estrito, o que pode servir para evitar possíveis e fundadas críticas.

Finalizando, tenho que dizer que procurei oferecer ao leitor, dentro do que foi explicado, algum material teórico que lhe pudesse interessar e servir para reflexão. Caso o tenha conseguido sob a forma de curiosidade, aquiescência ou questionamento, considerarei cumpridos e satisfeitos os motivos que me levaram a empreender a presente tarefa.

Belo Horizonte, junho de 1987

Gustavo Fernando Julião de Souza

 

 

NOTA ESCLARECEDORA:

O presente ensaio foi concluído no mês de junho de 1987, como o demonstra a data assinalada no final da INTRODUÇÃO.

Em meados deste ano consegui um exemplar de uma das obras capitais de ERNST KRETSCHMER intitulada "PSICOLOGÍA MÉDICA"* , livro por sinal bastante difícil de ser adquirido devido ao fato de não estar sendo editado há bastante tempo. Ao empreender a leitura do referido livro, grande foi a minha surpresa ao constatar a coincidência de diversos pontos de vista teóricos e formulações conceituais por mim estabelecidas com outras da mesma ordem feitas pelo renomado estudioso e psiquiatra alemão. Para citar um exemplo, a propósito do estudo do caminho percorrido pelo símbolo, partindo do senso-percepção rumo à intelectualidade, essa concepção, de minha autoria, guarda uma impressionante semelhança com as conceituações kretschmerianas de "Leyes de la Proyeccion de Imágenes" (pág. 93) e de "Sensación, Imagen y Objeto" (pág. 95) desenvolvidos no CAP. VI daquele livro e que se intitula "El Psiquismo y su Evolución" pertencente à segunda parte denominada "Os Aparatos Psíquicos y su Formación Evolutiva" (pág. 82). Da mesma forma, o autor desenvolve um estudo das analogias entre o pensamento primitivo, o pensamento infantil e os estados mentais patológicos, especialmente no que se refere à esquizofrenia e à histeria. Na realidade há muitas diferenças, mas também existem muitas semelhanças conceituais entre o que estabeleci no presente ensaio e aquilo que estabeleceu aquele importante autor em seu livro. E é exatamente esse caráter de semelhança entre as duas concepções teóricas que é necessário ressaltar com o objetivo de prevenir e evitar possíveis mal entendidos ou críticas tendenciosas ao presente ensaio. Por outro lado, devo confessar que é muito difícil deixar de se sentir lisonjeado a partir do momento da constatação de tais coincidências teóricas, levando-se em conta a enorme dimensão intelectiva e a importância histórica fundamental daquele que se constituiu em um dos mais notáveis nomes da Psiquiatria Contemporânea.

Belo Horizonte, agosto de 1988

Gustavo Fernando Julião de Souza

 

I -SIGNIFICAÇÃO E CONHECIMENTO IMEDIATO:

Pensamos que a noção de si mesmo tem origem em um tipo de consciência rudimentar que surge numa fase arcaica do desenvolvimento humano, atingindo sua plena substanciação em um período de crescimento e amadurecimento do psiquismo que tem lugar na inserção do homem no eixo social.

A consciência mais rudimentar de si mesmo coincide com o processo de diferenciação entre o ‘eu’ e o ‘não eu’, utilizando a criança, nessa etapa, toda uma vertente sensoperceptiva que a auxilia a situar-se em um meio no qual começa a perceber que existe cercada de outras coisas.

É lícito supor que a noção de si mesmo começa a delinear-se na criança à medida que se torna mais nítida a delimitação física de seu corpo paralelamente ao desenvolvimento completo da capacidade de utilizar símbolos em suas representações ideativas.

A partir do momento em que consegue simbolizar, é dado um grande passo para a sua separação do mundo circundante o qual, até então, sentia como uma continuação concreta de si mesma. O símbolo é algo que retira a criança dessa concretude mágica e infinita, que a faz abrir mão do desejo concreto de possuir em si própria o ilimitado para contentar-se em ter em si mesma coisas limitadas e representadas, com a consciência de que agora estão situadas fora de si.

Começa a estruturar-se, nesse momento, a consciência de significação do mundo, isto é, a capacidade de perceber, de adjudicar, de julgar e de integrar as coisas fora de si. A aquisição da consciência de significação do mundo é conseguida através da aprendizagem de normas sociais a partir da própria socialização a que é submetida a criança, além da maturação neurobiológica de certos setores psíquicos que tornam esse processo viável.

A operação de socialização é processo de natureza exclusivamente simbólica e é capacitada pela introdução da linguagem no universo da criança. As leis sociais, utilizando como veículo a linguagem, introduzem a finitude no ilimitado, delimitam o descontínuo. A consciência de significação do mundo, pouco a pouco, passa a institucionalizar-se e a tornar-se consensual. Rompem-se progressivamente os vínculos mágicos que uniam a criança ao mundo e que a amalgamavam a ele.

A estruturação e ordenação institucional da consciência de significação do mundo permitem o assentamento e a legalização da consciência de si mesmo entre os outros, viabilizando a sua própria existência.

A consciência de significação do mundo é algo que, à medida que adquire diferenciação, torna-se um atributo importante da consciência de si mesmo que ajudou a formar e da qual também faz parte.

A consciência de significação do mundo adquire progressivamente a capacidade de classificar, de ajuizar, de entender e de significar a enorme variedade de coisas do mundo externo, desde o que se refere à sua extrema diversidade e também às suas nuances.

Aí está, portanto, o núcleo básico da consciência de significação do mundo que é o entendimento e a compreensão das coisas do mundo externo.

Levando adiante esse raciocínio, terminaríamos por indagar em que consiste exatamente o fenômeno significação em termos de entendimento e de compreensão íntima, isto é, qual a natureza do fenômeno em si mesmo?

Como definição, podemos dizer que o fenômeno significação corresponde à plenitude do conhecimento subjetivo, isto é, à apreensão completa do símbolo pelo campo da consciência em toda a sua inteireza, reconhecendo-o como idêntico ou semelhante à coisa objetivada a qual, por outro lado, relaciona-se direta ou indiretamente a outro(s) equivalente(s) simbólico(s) anteriormente reconhecido(s) e fixado(s) pela memória.

É necessário esclarecer que estamos empregando o termo equivalente simbólico como a potencialidade múltipla de significação, isto é, a coisa objetivada no início do processo pode corresponder a mais de um sentido intrínseco, o qual somente se definirá na etapa final de significação.

É claro que, quando pensamos em uma coisa qualquer, só o conseguimos – e isso requer um exercício contínuo de inteligibilidade subjetiva – em termos de equivalentes simbólicos dela mesma, isto é, o exercício do pensamento configura mecanismos de representação.

A representação corresponde à fixidez ou à ‘impressão’ do equivalente simbólico no campo da consciência e que é um momento estático que se renova sucessivamente no fluxo contínuo e dinâmico do processo de entendimento pleno que tem lugar na consciência.

Significação é, portanto, o fenômeno final de uma cadeia de eventos que tem início com a representação da coisa objetivada, ou seja, a situação de fixidez do equivalente simbólico correspondente àquela no campo da consciência, no fluxo contínuo e dinâmico do processo de entendimento pleno que tem lugar na consciência seguida pelo reconhecimento dentro do elo específico no qual ela se insere no momento e, finalmente, pelo reconhecimento pleno ou entendimento completo, isto é, pela integração simbólica total dos elementos participantes na consciência.

O fenômeno de significação é acompanhado sempre pela certeza da compreensão, pela convicção subjetiva de exatidão do entendimento e do conhecimento.

Podemos dizer, desse modo, que significação é o conhecimento subjetivo pleno, absoluto e convicto de uma coisa objetivada ou de um evento externo ou interno ao indivíduo em um determinado momento.

A sequência dos eventos citados pode ser representada da seguinte maneira:

1-‘Impressão’ do equivalente simbólico no campo da consciência.

2-Reconhecimento do equivalente simbólico em relação a outros equivalentes direta ou indiretamente interligados àquele.

3-Conhecimento subjetivo pleno.

 

É necessário esclarecer, ainda, que o campo da consciência é o setor da vida psíquica onde ocorre o fenômeno da significação, enquanto a consciência individual consiste no todo psíquico reflexivo, pessoal e único.

A noção de si mesmo, intermediada e forjada pelo simbólico através da consciência de significação do mundo, gradualmente evoluirá para a estruturação completa da consciência de si mesmo ou consciência individual dotada de um caráter singular de autonomia, atividade e identidade.

Concluídas as considerações anteriores, vejamos agora qual é a natureza do conhecimento disponível ao indivíduo e como ele se integra à consciência de significação do mundo como algo inquestionável e irrefutável em toda a sua extensão, ou seja, prescindindo do mínimo grau de reflexão íntima.

Quando uma coisa significa algo, não há nenhum movimento reflexivo nessa operação simbólica, mas sim uma identificação imediata, automática e irrefletida da coisa com o seu significado.

Poderíamos indagar então, de que maneira e por quê isso ocorre, qual a sua necessidade e a sua verdadeira importância dentro de um âmbito maior de investigação.

Em primeiro lugar, teremos que admitir que o homem, e o que é mais importante, exclusivamente ele, é dotado de uma estrutura – e aqui se faz necessária a postulação da existência de um substrato neurobiológico determinado – inerente ao seu psiquismo e que é capaz de operar simbolicamente desde que seja contínua e regularmente estimulada. Chamaremos essa estrutura de matriz simbólica.

Essa estrutura, certamente produto final de uma longa evolução e verdadeira aquisição filogenética, corresponderia à potencialidade funcional capacitativa de operar simbolicamente, ao que chamaremos de função simbólica.

Ainda, o ato ininterrupto de operar simbolicamente, denominaremos exercício simbólico.

Podemos concluir, dessa maneira, que a matriz simbólica (função simbólica) necessita de alguma espécie de ‘matéria-prima’ suficiente para que seja acionado e efetuado o exercício simbólico. Essa ‘matéria-prima’, por sua vez, equivale ao patrimônio simbólico que reside no complexo sócio-cultural onde o indivíduo está inserido.

Definiremos patrimônio simbólico como o imenso conjunto de sinais e símbolos que formam, eles mesmos, o eixo e as ramificações do sistema de inteligibilidade coletiva, o qual denominaremos sistema consensual ou senso comum.

Procurando definir mais precisamente esses conceitos, diremos que o patrimônio simbólico corresponde ao conjunto de representações simbólicas coletivas de cada complexo sócio-cultural, as quais podem ordenadas conforme múltiplas possibilidades de arranjo, estruturando, desse modo, determinados sistemas consensuais ou de senso comum.

Deparamo-nos, neste ponto, com o elemento essencial, pedra angular básica e fundamental para a constituição e interação desses sistemas e que é a linguagem.

A procura do princípio de harmonia ou de coerência e de organização simétrica das coisas do mundo externo parece resultar da força de ressonância inerente a essa estrutura, existindo, em si mesma, a tendência e a capacidade de classificar e adjudicar os objetos, ou seja, constituindo a potencialidade nominativa do ‘eu’.

A matriz simbólica possuiria em si mesma a capacidade de agir como uma espécie de matriz de significados, quer dizer, de criadora de nexo e sentido para as coisas do mundo externo, de indutora do surgimento de noções e conceitos, investindo assim o sensível de um caráter de plena inteligibilidade e compreensão. Isto é, de antemão, a condição prioritária para o estabelecimento de significados coletivos, ou seja, representações simbólicas coletivas que constituirão a base da comunicação humana e da organização social como um todo.

Podemos ainda supor que a potencialidade nominativa do ‘eu’ é primordialmente binária, isto é, originariamente discrimina o ‘eu’ do ‘não eu’, dito de outra maneira, a consciência individual sabe que não é outro.

Partindo, desse modo, de uma escala binária de potencialidade de discriminação, podemos pensar que, da estrutura da linguagem (função simbólica) poderiam resultar múltiplos pares de símbolo com possibilidades teóricas de se ramificarem, se adicionarem e justaporem a si mesmos, criando, desse modo, um acervo considerável de unidades simbólicas básicas de comunicação inteligível e capaz de abrigar significados em número suficiente para o êxito da comunicação humana. Dito de outra maneira, a matriz simbólica abrigaria em si mesma a potencialidade de representação de alguns pares de símbolo com ‘valências’ opostas de sentido, pares de símbolos básicos, primordiais no caráter de denotação.

O sucessivo desdobramento desses pares, pressionado pela necessidade de denotação de inúmeros graus de tessitura, nuances, detalhes e qualidades específicas, poderia originar uma escala correspondente a um número muito grande de símbolos lingüísticos que manteriam estreitos vínculos genéticos de significação entre si, embora à primeira vista assim não o parecesse.

Desse modo, é lícito supor que a matriz simbólica (função simbólica) confunde-se ou é ela mesma a própria estrutura predisponente da linguagem, isto é, uma estrutura capaz de gerar um fluxo contínuo de exercício simbólico e que se concretiza em termos de exercício lingüístico.

O exercício lingüístico, através da linguagem falada e escrita, somado ao conjunto de sinais correspondentes a expressões mímicas, gestuais e corporais ritualizadas, estruturará o léxico coletivo, base para o assentamento do sistema de inteligibilidade coletiva ou senso comum.

Estamos diante, desse modo, da verdadeira e única base estrutural que forjará o universo simbólico humano e que é o sistema de linguagem

Esse sistema já carrega em si mesmo o caráter de consenso, de aliança e de partilha, visto que os significados coletivos ou representações simbólicas coletivas são ofertados e compartilhados integralmente pelos indivíduos.

É oferecido sob a forma de senso comum ou, conforme vimos antes, como um verdadeiro sistema de inteligibilidade coletiva, de organização e de denotação coletiva específica.

Nisso consiste, portanto, a fonte para a significação e para o entendimento imediato, que é o conhecimento do dia a dia, do quotidiano momentâneo.

Os fatos usuais e costumeiros, o linguajar rotineiro, as expressões e atitudes comuns adquirem um caráter inteligível tão claro e uma compreensão íntima tão plena que estão muito além de qualquer tipo de movimento reflexivo voluntário individual que possa ser realizado.

Os significados coletivos ‘estão aí’, precedem a origem do indivíduo e suas experiências, impõem-se como tal carregados de sentido e de certeza de compreensão.

Contudo, longe de consistirem em um sistema estático, aparentando estar situados exclusivamente fora da consciência individual como pode parecer à primeira vista, na verdade fazem parte de um todo dialético, dinâmico e intrincado.

Podemos dizer que, ao mesmo tempo que a consciência individual utiliza o conhecimento imediato que lhe é oferecido através do sistema de inteligibilidade coletiva sob a forma de significados coletivos ou representações simbólica coletivas e que servirá para a sua ordenção institucional, tem ela mesma condições de introduzir mudanças ou produzir novos significados dentro desse sistema vigente.

Nisso reside o extremo dinamismo e as infindáveis flutuações do caráter de significação, levando-se em conta as mudanças possíveis de ocorrer através do tempo.

Consideramos de muita utilidade, objetivando uma visão de totalidade do que foi dito, rever os conceitos anteriormente emitidos através de uma representação diagramática como a que se segue:

MS = Matriz simbólica = Estrutura da linguagem
S = Campo da Consciência
S’ = Significação
Q = Consciência Individual
PS= Patrimônio simbólico = Sistema de Inteligibilidade coletiva = senso comum
Es = Simbolização = Exercício lingüístico

 

De acordo com esse esquema, vemos com nitidez como se efetua a integração recíproca entre PS (Patrimônio Simbólico) e a MS (Matriz Simbólica) , resultando no exercício simbólico (ES) que, na verdade, se concretiza em exercício lingüístico que é a base de comunicação humana.

Vemos também que o conhecimento imediato e cotidiano se realiza no campo da consciência (S), através do processo de significação (S’) e que isso irá constituir o alicerce de formação da consciência individual (Q).

Consciência individual , senso comum, matriz simbólica e sua ‘matéria-prima’, o patrimônio simbólico , são nomes dados a estruturas e funções que equivalem a várias dimensões de um fenômeno resultante de um complexo jogo dialético, o fenômeno humano.

 

II- SOCIALIZAÇÃO:

Dissemos anteriormente que a plena substanciação da consciência de si mesmo tem lugar na inserção do indivíduo no eixo social. Por esta razão, de posse dos conceitos estabelecidos no capítulo anterior, passaremos a fazer um estudo do processo de socialização.

Em primeiro lugar tentaremos esclarecer exatamente de que se trata esse processo e em que necessidades está apoiado, para em seguida elucidarmos de que forma ele se efetua e desenvolve.

Entretanto, para conseguirmos algum esclarecimento a respeito da natureza desse processo, teremos que elaborar uma teoria que nos permita compreender exatamente de que maneira o homem inseriu-se em uma ordem social nascente produzida por ele mesmo, em seus primórdios e, além disso, se fará necessário que investiguemos os fatores que confluíram para viabilizar essa inserção.

Para que consigamos tal intento é preciso que voltemos os olhos para um passado remoto e longínquo, tão desconhecido como fascinante e tão complexo quanto obscuro.

Em vista disso, na exposição que se segue, procuraremos inicialmente ressaltar e definir os conceitos básicos que julgamos necessários para a construção do arcabouço da teoria proposta, partindo em seguida para a formulação e ordenamento dos elementos conceituais finais, os quais, através de uma interação dialética, comporão o eixo central daquela.

É nosso pensamento que o homem, ser simbólico por excelência, só conseguiu constituir-se como tal à medida que alguns fenômenos, ocorrendo em caráter sincrônico, chegaram, em alguma época, a se configurar como em uma verdadeira interseção, levando, desse modo, à profunda transmutação que o lançou definitivamente no universo simbólico.

Como uma primeira pergunta, poderíamos indagar como esse processo teve início e para começar a responder precisaremos lançar mão, como hipótese de trabalho, de um conceito definido no capítulo anterior, que é o princípio nominativo humano.

É possível supor que o princípio organizador humano que se manifesta sob a forma de classificar e exercer o princípio nominativo caminhe lado a lado com a necessidade profunda do homem de experimentar algum tipo de organização coletiva. Á medida que progride o conhecimento das coisas do mundo externo, desenvolve-se a necessidade de organizá-las e também de justificá-las e legitimá-las.

Acreditamos – e isso se constitui em um consenso pacífico entre praticamente todos os autores que se ocupam do tema - que não seria incorreto dizer que a necessidade de organização social é algo profundamente enraizado no caráter do homem e que o seu início ocorreu independentemente da razão humana tal como a conhecemos, ou seja, expressou-se sob a forma de ritos mágicos e normas de tabu.

No entanto, a produção mítica que emoldurou o universo simbólico humano carregava em si um tipo de legitimação e de normatização dos diversos níveis de convivência entre os indivíduos, isto é, foi capaz de estruturar a formação de uma ordem social.

Quanto a isso, vemos claramente que as normas de tabu encerrando de maneira geral um núcleo de proibição, seja ele referente, por exemplo, ao ato de tocar um morto ou mesmo de pronunciar sílabas que estão presentes no nome do chefe da tribo, equivalem a graus de ritualização do comportamento coletivo, de tipificação dos hábitos dos indivíduos.

É evidente, desse modo, que a produção mítica abriga a lei, que, por sua vez, irá induzir a legislação da convivência humana. Sob o vôo etéreo do mito, descortinamos a espantosa funcionalidade da união social.

O ‘não poder fazer’ e o ‘ter que cumprir’ já são os primeiros significados sociais que originarão os papéis a serem desempenhados por atores típicos em uma reciprocidade contínua de ações habituais (1).

Papéis são modos de ação, tipos específicos de atitudes desempenhadas por atores (1) que já sabem instantaneamente o que desempenhar com exatidão porque aprenderam o alfabeto social e estão continuamente integrando os significados sociais à sua disposição no enorme ‘script’ social, o senso comum.

Os adultos significativos e os membros do meio social se encarregarão de promover a aculturação da criança com a finalidade de integrá-la entre os outros, de legalizar a sua existência nesse meio, isto é, de socializá-la.

Á consciência, em seus estágios iniciais, é oferecido todo um mundo completamente inteligível e legitimado, cheio de propósito e finalidade. As coisas do mundo ‘estão aí’, elas são integralmente dotadas de sentido, harmonicamente ordenadas e justificadas em si mesmas.

Nisso se constitui a alma de todas as instituições humanas e o processo de socialização da criança realizado através da educação consiste em ‘imprimir’ toda uma vasta série de significados consensuais ou sociais naquilo que denominamos consciência de significação do mundo.

Pelo termo significado social entende-se o conteúdo simbólico que traz a certeza de conhecimento e de entendimento daquilo que é familiar e corriqueiro, do tipo de papel que se deve desempenhar no momento adequado e esperado. Carrega consigo o sentido de legitimidade e de inteligibilidade de ação efetuada ou da mensagem emitida, acompanhado por um estado efetivo subjacente de mínima carga de tensão emocional ou de sensação de desconforto. Corresponde às ações ou mensagens habituais significadas em um clima de calma rotineira, não sendo necessário um esforço voluntário para aprender a significá-las e adequá-las aos momentos específicos e muito menos para compreendê-las, para descobrir a sua inteligibilidade intrínseca.

Acreditamos que nos primórdios do desenvolvimento do homem as ações se foram tornando habituais provavelmente porque correspondiam às formas de agir que mais convinham às necessidades de seu grupo social, isto é, as que traduziam maior economia de esforço e maior ganho de benefícios solidários coletivos passaram a induzir a formação de diversos tipos de conteúdo simbólico que se foram tornando cada vez mais pertinentes e enformados á medida que essas ações bem sucedidas repetiam-se com regularidade de freqüência.

É comum em nossas experiências cotidianas observarmos que esse fenômeno acontece quando, por exemplo, sendo forçados a uma mudança de forma de vida, desenvolvemos novos hábitos que se incorporam rapidamente à nova rotina de maneira a evitar gasto energético inútil e procurando manter uma situação de economia interna.

É bem possível que isso corresponda a uma capacidade intrínseca do homem, a uma potencialidade adaptativa que favoreceu o seu êxito biológico, impulsionado pela sua vontade e curiosidade, fontes inquestionáveis de sua razão.

É interessante notar como os conteúdos simbólicos correspondentes às ações habituais bem sucedidas para o grupo social foram inicialmente manifestados sob a forma de expressões pictóricas e de ritos mágico-sagrados.

Quando observamos, por exemplo, uma pintura rupestre relativa a uma cena de caça, não podemos deixar de pensar na extrema importância de que se revestia essa atividade para a sobrevivência do homem e de seu grupo social e, mais ainda, na importância que representava para a manutenção da ordem social nascente e de sua organização interna, para o estabelecimento e conservação dos esboços de papéis sociais e distribuição de trabalho e de relações de poder entre os seus membros.

A expressão pictórica equivalente a uma ação habitual específica era algo visto e sentido pelos integrantes do meio social como uma ação comum imbuída de um caráter de partilha solidária.. O drama cotidiano estava ali, diante do grupo tornava-se familiar a todos, despertava basicamente o mesmo espectro de emoções e sentimentos, era significado da mesma forma. Contudo, esse drama pictórico, além de simbolizar o sucesso do homem do mundo e seu êxito perante todas as vicissitudes naturais, exprimia talvez as primeiras noções de significados sociais, a importância da coesão do grupo e a necessidade de manutenção da ordem social sustentada pela divisão específica de papéis entre os indivíduos.

Os atores típicos começavam a desempenhar os seus papéis dentro de uma reciprocidade contínua de ações habituais. Estava nascendo uma das primeiras instituições humanas, a instituição da caça.

Da mesma maneira, os ritos mágico-sagrados também expressavam a manifestação de conteúdos simbólicos calcados em ações habituais. Os ritos correspondentes aos mitos cosmogônicos e escatológicos traziam em si a necessidade de reafirmar periodicamente a origem sagrada do homem, ou seja, sua repetição regular reafirmava a plena convicção nos mitos partilhada coletivamente.

A produção mítica exteriorizada sob a forma de ritos é mais um exemplo da relação dialética entre conteúdos simbólicos e ações habituais. Basta pensar nos ritos mágicos relativos, por exemplo, às cerimônias de iniciação tribal mediando transformações de papéis sociais, veiculando mudanças dos ‘status’ sociais nos indivíduos que delas participam, em suma, remanejando e regulando a homeostase dos grupos sociais.

Quando, em outro exemplo, os ritos se referem às origens dos cereais e vegetais, na verdade o que ocorre é a sacralização das ações habituais coletivas bem sucedidas referentes às atividades de colheita que originaram e continuam favorecendo o êxito biológico grupal através dos tempos. A tortuosa saga da tribo é narrada e repetida muitas vezes reafirmando-se a importância da coesão social, da manutenção da ordem social e da divisão de trabalho e de relações de poder entre os membros do grupo.

O rito nada mais é que uma ação específica pertencente à esfera do sobrenatural e efetuada por indivíduos que são dotados de um determinado ‘status’ os quais desempenham o seu papel como membros constituintes de uma instituição religiosa socialmente legitimada. Essa ação ritualizada pertence a um tipo de cotidiano, o cotidiano sagrado, mas nem por isso se situa fora do sistema de inteligibilidade coletiva, o senso comum. Ao contrário, o membro do grupo sabe que as cerimônias de sacralização realizadas pelo xamã ou feiticeiro pertencem ao seu próprio mundo, estão cheias de propósito e de finalidade, estão dentro de sua "Weltanschauung", ou seja, pertencem à visão cognitiva da vida e do ambiente total que ele e os outros têm.

É necessário, neste ponto, discriminar e definir os dois tipos básicos de cotidiano: o cotidiano profano e o cotidiano sagrado.

O primeiro abriga os significados sociais de caráter prático, usual, rotineiro e familiar, equivalentes a conteúdos simbólicos correspondentes às ações significadas dentro de um sentido de inteligibilidade acessível ao homem comum. Contém, portanto, os significados sociais que são compartilhados por todos os membros do grupo e que são acompanhados por um estado afetivo subjacente de mínima carga de tensão emocional.

O segundo abriga significados sociais de caráter sobrenatural, incomum e extraordinário, equivalentes a conteúdos simbólicos correspondentes a ações significadas dentro de um sentido de ininteligibilidade, de mistério e de incompreensibilidade. Não são acessíveis ao homem comum, mas apenas aos indivíduos investidos de ‘status’ específicos para decifrá-los e transmitir o seu sentido de inteligibilidade aos demais. São acompanhados por estados afetivos de exaltação, de horror, de medo e de fascínio.

Vemos aí, claramente, como se estruturam as relações de poder entre os diferentes indivíduos do mesmo grupo social, como as leis sociais são cobertas pelas vestes da magia, do mistério e do sagrado sem que, à primeira vista, se possa suspeitar de uma tão grande eficácia funcional.

As duas esferas, a do profano e a do sagrado, interpenetram-se de tal maneira que no cotidiano profano encontram-se elementos sagrados imiscuindo-se e impregnando todas ou quase todas as ações habituais e as atividades rotineiras e vice-versa, o cotidiano sagrado encontra-se povoado de elementos profanos. Os deuses também excutam atos humanos, simples e corriqueiros e os homens comuns podem às vezes adquirir uma centelha divina, transmutando-se, assim, em heróis. Estes são significados sociais que permitem a legitimação de intercâmbios e alternância das relações de poder entre os membros do grupo social, atendendo à necessidade de legalizar o surgimento de lideranças emergentes personificadas por indivíduos dotados de alto valor de diferenciação física e intelectual.

Parece provável que a grande escalada da evolução social humana obedeceu a grandes ‘saltos’, ocorrendo vários fenômenos tão intimamente relacionados e interligados que, sob o ponto de vista temporal, é provável que alguns deles tenham se dado de uma forma quase superposta e simultânea com caráter de continuidade orgânica, sucessiva e indeterminada. As aquisições progressivas de características peculiares devem ter sido agregadas cumulativamente até o ponto de representarem novas formas de significação dotadas de maior precisão denotativa, correspondendo então a etapas decisivas desses ‘saltos’ evolutivos.

Entretanto, apesar das dificuldades, faz-se necessário tentar localizar e definir pelo menos algumas dessas etapas para que se consiga ter uma visão panorâmica elucidativa dos eventos importantes que se foram sucedendo.

Dissemos antes que as normas de tabu já correspondiam aos primeiros significados sociais que originariam os papéis sociais a serem cumpridos por atores típicos em uma reciprocidade contínua de ações habituais.

Pois bem, é razoável supor que as normas de tabu consistiram nos verdadeiros alicerces para a ascensão e aprimoramento progressivo do sistema social até a formação de estruturas mais complexas, como as instituições sociais.

Em um nível de organização social mais simples, é provável que as normas de tabu consistissem nas referências mais importantes e quase exclusivas que eram capazes de nortear e caracterizar a visão do mundo e do meio ambiente para os membros de um grupo social, regendo, desse modo, todas as suas atividades rotineiras e práticas. Contudo, a permanência desse código rígido por um período de tempo indeterminado e indefinido, apesar de ter sido ele o responsável pela estruturação de uma ordem social nascente, provocaria inevitavelmente um estado de imobilidade social, uma absoluta inércia de significação coletiva e uma inibição completa de exercício de ações inovadoras.

As normas de proibição já não eram qualitativamente eficientes e nem quantitativamente suficientes para mediar novos e mais complexos conteúdos simbólicos correspondentes a novas e múltiplas ações habituais bem sucedidas.

O princípio ou a potencialidade nominativa humana começava a querer compreender o meio externo e seus fenômenos mais simples, já esboçava interrogações sobre a sua própria origem e a do universo circundante, urgia aprender a dominar os meios de subsistência mais acessíveis e próximos de si, necessitava iniciar transformações no ambiente, precisava, enfim, agir e atuar no mundo.

As normas de tabu tolhiam as ações do homem, refreavam a sua vontade e curiosidade. Até então, ele era parte indissociável da natureza, imerso em uma irmandade totêmica, orgânica e abrangente, membro de uma verdadeira Sociedade da Vida (2). As normas de tabu impediam qualquer profanação dos elementos naturais que se revestiam de um caráter sagrado e lhe despertavam sentimentos de temor e respeito.

Á medida que, impulsionado por necessidades biológicas, foi obrigado a aumentar progressivamente o seu raio de ação no mundo externo, foram surgindo novas ações habituais que, por seu turno, correspondiam a novos conteúdos simbólicos mais complexos equivalentes a níveis de relações de poder e de organização econômica mais intrincados dentro de um sistema social em contínua diferenciação.

Isso forçou o aperfeiçoamento das relações formais entre os indivíduos como, por exemplo, o estabelecimento de ‘status’ e posições sociais e a regulamentação de graus de parentesco veiculados por significados sociais mais elaborados em termos de significação e compreensão coletivas. Os primeiros grupos de significados sociais integrados sob a égide da significação consensual e associados a equivalentes afetivos correspondentes a estados subjetivos expressos como ‘bom’ e ‘mau’ já constituíam esboços de sistemas éticos e morais, podendo ser chamados de paradigmas sociais.

Poderíamos dizer que os significados sociais, concatenados ‘em rede’, originaram os paradigmas sociais, tipos de sentenças ou leis sociais, isto é, complexos simbólicos que traduziam unidades denotativas de ação e de comportamento coletivo específico, oscilando entre os pólos de proibição e da permissão, ou seja, revestidos de um caráter negativo ou positivo, respectivamente.

Até então, as ações habituais coletivas e os significados sociais emanavam do pólo da proibição das normas de tabu, correspondentes ao núcleo visível e bem estabelecido da interdição social. O pólo oposto, o da permissão, ainda não se manifestara no sentido de incentivar e promover atitudes e ideais coletivos mais elevados e aprimorados, estando, de certa forma, à sombra do pólo de proibição, com os significados sociais produzindo-se sobre um fundo de verdadeira contração existencial.

No entanto, quando a relação bipolar linear converteu-se em uma relação bipolar espacial através de um giro angular, o pólo da permissão aflorou completamente e passou a produzir significados sociais sobre um fundo de expansão existencial plena.. A figura 02 pode ilustrar esta concepção através da seguinte representação diagramática:

 

 

a = Pólo de Proibição;
b = Pólo da Permissão apresentando uma forma de relação linear com o pólo de proibição;
α = Giro Angular;
b’ = Pólo de Permissão após o giro angular, dotado agora de um caráter de expansão e apresentando, nesse estágio, uma forma de relação espacial com o pólo de proibição.

 

À guisa de comparação, poder-se-ia dizer que, a um período de enchimento social lento, cuidadoso e vagaroso como numa verdadeira diástole, seguiu-se um outro de arrojo e vigor acentuados como numa poderosa sístole existencial, correspondendo ao avanço e domínio do homem sobre o meio ambiente e à necessidade simultânea e paralela de diversificação inovadora dos dispositivos sociais.

É provável que no estágio de predomínio do pólo de proibição fossem produzidas algumas ações inabituais de ‘escape’ relativamente aleatórias e ‘experimentais’ para a coletividade, porém ainda destituídas de verdadeira e autêntica legislação, isto é, isentas de sólida legitimidade consensual. Posteriormente, as que representassem maiores vantagens adaptativas para o grupo seriam selecionadas e sancionadas para uma futura legalização e ritualização coletivas, sendo assim inseridas dentro do âmbito do senso comum.

Podemos tentar compreender essas etapas de transição da seguinte maneira: o exercício de ações inabituais, de início esporádicas e depois persistentes, deveria ser observado pelo grupo primeiramente com surpresa, seguindo-se uma aceitação condescendente equivalente a uma permissão passiva e silenciosa até atingir o estágio de legalização e ritualização dessas ações (permissão ativa) que, então, se converteriam de inabituais para habituais sendo os seus significados sociais incluídos dentro do senso comum vigente.

A clara compreensão dessas etapas sugere que todas as instituições se foram erigindo durante a consecução desses passos fundamentais, ou seja, foram sendo construídas dentro de um processo de expansão e agregamento contínuo de significados sociais cada vez mais complexos porém sempre ligados e geneticamente derivados de uma base constituída por significados sociais mais simples emanados do pólo de proibição ou de tabu.

O nascimento e o desenvolvimento das instituições humanas caminhou lado a lado com a necessidade de se legislar o todo da ação social, ao mesmo tempo em que cada detalhe das relações interpessoais era cuidadosamente catalogado e codificado. À medida que, atendendo às necessidades crescentes do grupo, era formado sobre o princípio da ordem social um esboço de sociedade civil, foi imperativo o processo de legislação encerrando, em si mesma, o caráter de legitimidade e legalidade dessa sociedade em contínua expansão.

Coube e ainda cabe à tradição, isto é, a incessante transmissão dos caracteres inteligíveis e legitimados da ordem social estabelecida às sucessivas gerações, a tarefa de consolidar a legitimidade e a inteligibilidade das instituições humanas através dos tempos.

Podemos tentar explicar aqui, para ilustrar como exemplo do que foi dito, a norma universal da proibição do incesto.

A instituição do casamento obedece a esse paradigma social de caráter inflexível e severo. Sejam quais forem as origens e fins dessa lei que levou a espécie humana a rejeitar os casamentos consangüíneos, provavelmente ela teve o seu início e o seu desenvolvimento dentro dos estágios progressivos de evolução social conforme vimos antes, quer dizer, trata-se de um paradigma social que regula a instituição do casamento e que é emanado diretamente do pólo de proibição ou de tabu.

Podemos presumir que a interdição do casamento aos indivíduos do mesmo grupo cultural (endogamia), provavelmente calcada na proibição do incesto, naturalmente forçou a escolha de cônjugues em outros grupos diferentes, incentivando diretamente a legitimação dessas uniões em termos de exogamia. Nesse caso específico, vemos que a exogamia foi a solução encontrada para a proibição geral da endogamia e é muito possível que isso possa ter representado um fator muito importante para o incremento do intercâmbio entre clãs totêmicas diferentes, favorecendo a comunicação interpessoal e trazendo benefícios tão grandes para a espécie humana que ainda talvez estejamos longe de suspeitar. Esse fato serviria como exemplo oportuno da manifestação do pólo de permissão, advindo assim novas ações, hábitos e costumes, incitadas a surgirem devido ao estabelecimento da interdição, da proibição e da recusa, próprias do pólo de contração.

De maneira geral poderíamos afirmar também, com boa margem de segurança, que todos os sistemas de parentesco foram estabelecidos partindo das mesmas bases e apoiadas em necessidades específicas dos diversos grupos sociais.

No capítulo anterior vimos a relação dialética entre consciência individual e patrimônio simbólico e, agora, teremos a oportunidade de entender e tentar esclarecer ainda mais essas definições e conceitos com base no que dissemos há pouco. A figura 03 mostra a inter-relação esquemática entre o patrimônio simbólico, agora enriquecido com os seus constituintes, isto é, significados sociais, paradigmas sociais e instituições sociais e a consciência individual:

 

'

a = Pólo de Proibição;
w e w’ = Significados Sociais;
p, p’, p’’, q e q’ = Paradigmas Sociais;
Q = Consciência Individual;
b’ = Pólo de Permissão;
IS = Instituição Social;
PS = Patrimônio Social;
S = Campo de Consciência;
S’ = Significação;
MS = Matriz Simbólica;
Es = Simbolização = Exercício Lingüístico

 

Até aqui, atendendo ao nosso objetivo inicial, vimos os conceitos importantes e procuramos defini-los da maneira mais clara possível e agora é chegado o momento de partir para a apresentação do eixo central de nossa teoria que é constituída por três elementos conceituais fundamentais configurados em um nível de relações dialéticas e que são: conteúdos simbólicos, ações habituais e significados sociais.

Quanto ao primeiro elemento conceitual, poderíamos também chamá-lo de representação simbólica unitária ou neoformação simbólica original, partindo do pressuposto – de cunho eminentemente teórico-didático, com o objetivo de facilitar a exposição e a compreensão – de que um indivíduo ou um pequeno grupo de indivíduos (de qualquer modo uma unidade), em época remota e alhures, começaram a significar certas ações habituais, ou seja, iniciaram a ter entendimento pleno delas mesmas e compreenderam à sua maneira que era necessário continuar efetuando-as continuamente. E mais, talvez simultaneamente tivessem percebido que era também necessário transmitir essa aprendizagem para os seus descendentes tal o êxito imediato que se lhes afigurou diante da funcionalidade positiva de tais ações. É bastante provável que a matriz simbólica, possivelmente em fase final de maturação evolutiva, já tivesse condições de funcionar como uma espécie de matriz potencial de conceitos ou noções, isto é, de significados, em correlação direta e recíproca com o sistema mecânico de fonação, este também em um estágio bem avançado de aperfeiçoamento evolutivo e sendo fisiologicamente o setor mais apropriado e natural para a materialização sonora e locução de alguns enunciados com estrutura fonética simples.

Agora consideremos, estamos empregando os termos noção, conceito e significado como sinônimos que denominam um fenômeno chave hipoteticamente produzido pela matriz simbólica. Estas denominações podem se revestir de um caráter de dubiedade, ingenuidade e até de otimismo, quando se considera que é nesta necessidade de precisão conceitual que carrega em si um afã que atinge um grande esforço reflexivo, é exatamente neste ponto que reside a dificuldade de se falar a respeito não do abismo transposto pelo homem, mas sobre o grande salto que foi dado para transpô-lo. Sim, pois a mediação do sensível pelo simbólico, investindo-o de um sentido (2), representou uma nova aquisição apoiada na qual a espécie humana se transmutou para efetuar o salto que a levou ao outro lado do abismo da evolução, à outra extremidade do grande fosso que a separou definitivamente das outras espécies animais, lançando-a definitivamente no universo dos sonhos, das fantasias e dos desejos.

Pois nada mais resta a fazer senão tentar conceituar conceitos e procurar definir definições, em suma, empilhar palavras sobre palavras à procura da narrativa vã e perdida daquilo que aconteceu do outro lado na vasta noite dos tempos e que agora se nos assoma como inefável em seu âmago de total realidade apreendida, acostumados que estamos a vislumbrar e tentar compreender esse longo momento com os olhos acomodados e embebidos de simbolismo.

No entanto, apesar de todas as dificuldades, esse longo momento de transição consumou-se, não obstante as imprecisões das definições e as distorções da lente simbólica empenhada em perscrutar e decifrar o início do processo no espaço perdido, na dimensão não simbólica.

Isso posto, somos levados a considerar que foi na linguagem que o simbólico constituiu-se a si mesmo e conseguiu preencher de sentido o sensível, estabelecendo-se como unidade visível e inteligível do processo de comunicação humana. A matriz simbólica, desempenhando o papel de matriz potencial de significados, de conceitos e de acepções, só conseguiu firmar-se como tal à medida em aqueles significados eram continuamente realimentados pela parte fônica, pela imagem acústica de um fonema ou seqüência de fonemas, ou seja, de significantes, provendo-se assim do caráter de significação.

Então podemos inferir que as primeiras neoformações simbólicas originais ou representações simbólicas unitárias certamente corresponderam ao estabelecimento da inscrição lingüística original interna, com elas mesmas equivalentes à ação, então, já habitual da fala. Isto mostra mais uma vez a universalidade da natureza dialética das relações entre conteúdos simbólicos e ações habituais, neste caso representada pela relação delineada entre significado e significante, quer dizer, entre o entendimento pleno, a significação e a própria ação habitual da fala. O ato de falar, ação fonética, tornou-se desse modo a maior ação habitual dentre todas as outras e passou a promover a estruturação progressiva do léxico coletivo, catalogando e legitimando lingüisticamente as outras ações habituais e impulsionando simultaneamente a formação do sistema de inteligibilidade coletiva. É bem provável que o desenvolvimento da institucionalização da linguagem e o processo de institucionalização humana foram ocorrências de tal maneira sobrepostas em suas origens primevas, que passaram a confundir-se em seus contornos e em seu curso, constituindo-se em um todo fenomênico único.

Dentro dessa visão é que agora iremos retomar a análise dos três elementos conceituais há pouco enunciados:

1-Conteúdos simbólicos que se referem às representações simbólicas unitárias ou neoformações simbólicas originais relativas a significados ou conceitos que em alguma época foram legitimados por alguns indivíduos através do exercício lingüístico e da práxis social, passando para o domínio público e consensual sob a forma de significados sociais e tendo sido transmitidos aos descendentes por meio da tradição, assim sedimentando-se e estabelecendo a visão cognitiva do mundo que cada membro do grupo partilha com os demais no âmbito da plenitude do entendimento cotidiano completo.

2-Ações habituais, referentes à práxis rotineira do grupo social, isto é, ao conjunto de atividades humanas tendentes a criar as condições indispensáveis à existência da sociedade. À medida que as ações habituais foram ocorrendo, passaram a contribuir cada vez mais para a sedimentação das neoformações simbólicas originais, tendo sido isso possibilitado pelo exercício lingüístico. Novas ações habituais vantajosas para o grupo se foram produzindo e, gradualmente, legalizaram-se e inscreveram-se no código social vigente.

3-Significados sociais, correspondendo às representações simbólicas coletivas ou de domínio público consensual e que irão oferecer à consciência individual, em seu nascedouro, um modo harmonicamente ordenado e justificado em si mesmo, induzindo, desse modo, a formação de conteúdos simbólicos individuais que trarão a certeza do conhecimento e do entendimento daquilo que é familiar e corriqueiro.

 

Conseguiremos o alargamento da visão digramática representada na figura anterior pela adição do terceiro elemento conceitual ao quadro e que é a práxis social (ações habituais), resultando a configuração da relação final na seguinte forma (Figura 04):

B1 ... Bn = Ações habituais (práxis social);
A1 ... An = Neo-formações simbólicos originais;
ES = Exercício simbólico (EL= Exercício Lingüístico).

 

É importante considerar, como vimos antes, que o exercício lingüístico, ou seja, a integração contínua entre os significados e os significantes foi a ação habitual (ação fonética) que tornou possível a viabilização e a estruturação completa de um todo simbólico, mediando e veiculando, de um lado, as transformações efetuadas no ambiente sócio-cultural e, do outro, naquele que as efetuou, isto é, no próprio homem.

Cabe ainda dizer que, considerando-se a práxis social como o conjunto de atividades humanas tendentes a criar as condições materiais indispensáveis à existência da sociedade, vislumbramos as representações simbólicas coletivas (significados sociais e paradigmas sociais) – além dos dispositivos reguladores sociais erigidos através desses elementos, as instituições sociais - como verdadeiros correlatos e sustentáculos simbólicos daquela em um verdadeiro intercâmbio recíproco de legalização, tipificação e de predisposição à continuidade indeterminada das ações habituais. A práxis social é legalizada juridicamente por intermédio das instituições sociais, dispositivos reguladores da homeostase social do grupo e que estão situados dentro de uma instituição maior com poderes de atuação direta sobre os intercâmbios interpessoais e que é a instituição da lei. Esta tem poderes de sanção e de punição sobre os indivíduos e irá legalizar juridicamente todas as outras instituições estabelecidas. É evidente que os grupos humanos que representem os poderes dominantes em uma sociedade irão de uma forma ou de outra tentar perpetuar as características das instituições sociais para que estas continuem trazendo benefícios para si mesmos, servindo-se da instituição da lei como indispensável aliada para as suas ações setorizadas.

Por último, em relação à consciência individual, podemos firmar que a acumulação de vivências diversas a proverá do conhecimento necessário do mundo externo para que haja a promoção de um maior exercício da função simbólica, evento que influirá decisivamente na sua progressiva maturação.

Em resumo, podemos dizer que as representações simbólicas coletivas acionam a função simbólica (matriz simbólica) o que leva ao exercício simbólico e daí à diferenciação da consciência de si mesmo.

Este processo pode ser expresso sob a forma da seguinte representação, onde Q designa a consciência de si mesmo:

Vemos que o desenvolvimento da consciência de si mesmo é função do exercício simbólico, por sua vez aproximadamente igual às derivadas de dois parâmetros cujos valores podem ser modificados de acordo com flutuações quantitativas em um ou no outro, designados pelas representações simbólicas coletivas e pela matriz simbólica, sendo esta caracterizada pela capacidade de produzir significados e também pelo número e especificidade dos próprios significados produzidos.

 

Pensamos que foram essas as etapas aproximadas que o homem teve que percorrer para adquirir a sua identidade institucional, para poder chamar-se a si mesmo de humano, agarrando-se ao sagrado do nome e jactando-se de ser filho do Verbo.

Acreditamos também que à criança não resta outro caminho senão o de trilhar a vereda da humanização, da simbolização, da ordenação institucional de sua consciência de significação do mundo, da legalização de si mesma entre os outros. Pois que no futuro talvez ela também se orgulhe de fazer parte do todo humano, de suas vicissitudes, de suas contradições e de seus enigmas. Tal como os primeiros homens, sentirá a ingênua e iluminada alegria da significação da Palavra, da compreensão do mundo misterioso e mágico, sofrerá a mesma saga engendrada pelos seus semelhantes e antepassados.

Sim, pois um dia o balbucio obscuro e impreciso evoluiu para promulgação clara e determinada de sentença.

O drama pictórico transformou-se em Arte.

A adoração coletiva e extática dos heróis responsáveis pela viabilidade biológica humana personalizou-se nos Nomes dos Deuses.

As neoformações simbólicas já podiam corresponder a sons precisos.

A semântica já podia equivaler à expressão ruidosa da fonética.

Os sons, antes inarticulados, já podiam ser articulados, já significavam coisas e eventos, já provocavam a significação espontânea e natural nos outros. Estava nascendo a comunicação humana.

Estava surgindo a linguagem, a significação dinâmica, viva, expansiva e por outro lado o encarceramento, o isolamento do homem em relação às outras espécies, ao Todo e à natureza. Mais tarde ele inventaria o Logos ...

Extinguia-se então, pouco a pouco, a irmandade com o Cosmo, a solidariedade com a grande Sociedade da Vida. O homem já não era irmão da semente, das estrelas e das árvores. Ele era apenas somente ele. E absolutamente sozinho.

O drama da sobrevivência estava terminado e começava então o ato interminável da angústia humana.

...

III - CONSCIÊNCIA COLETIVA E CONSCIÊNCIA INDIVIDUAL:

 

Na parte que se segue procuraremos estabelecer alguns vínculos e conexões entre o que chamamos consciência individual e consciência coletiva, além de tentar relacionar esses dois fenômenos com a sua verdadeira infra-estrutura que é a cultura. Procuraremos também, de forma subjacente, iniciar o estudo da evolução do símbolo lingüístico de maneira tal que este esboço sirva como preparação para o que virá no capítulo subseqüente.

Temos convicção de que não podemos deixar de ignorar os pressupostos biológicos de adaptação na teorização da gênese da cultura humana em geral.

É certo que os dispositivos reguladores culturais tiveram, no início, como objetivo básico, a manutenção e a preservação das finalidades biológicas do homem, tendo como princípio que a própria organização cultural emergiu das necessidades de sua adaptação ao ambiente inóspito.

Através da cultura, o homem operou sobre o meio ambiente modificando as suas condições para melhor se adaptar a ele.

Há sempre uma relação direta entre a forma, o aspecto dos dispositivos culturais e os tipos específicos de dificuldades que a espécie humana encontrou para superá-las. As resoluções culturais apropriadas seriam como, por exemplo, um líquido, que ao ser colocado no interior de um determinado recipiente, toma a sua forma ao adquirir suas sinuosidades e angulosidades, não sendo incorreto dizer que os ‘conteúdos culturais’são semelhantes em sua forma aos ‘continentes’ correspondentes às dificuldades de adaptação do homem.

A constatação de uma grande diversificação das formas culturais provavelmente deve-se ao fato de que o aparelho instintual humano é desprovido de especialização e direcionamento, carregando em si um enorme grau de plasticidade. Disso resulta, então, a formação de dispositivos culturais extremamente diferentes assentados em possibilidades potenciais de simbolização muito variadas.

Desse modo, percebemos que o homem transformou o meio ambiente à sua maneira, produziu os seus dispositivos culturais e desde então vive tão indissoluvelmente ligado a eles que a sua natureza confunde-se com a natureza desses dispositivos. O homem é igual àquilo que produz e, em termos de produção humana, a forja parece ser dotada de uma capacidade de fluxo inesgotável. Ele produz a cultura e é também, simultaneamente, o produto dela mesma.

Nos primórdios do processo de humanização, quando o vão entre a realidade externa e o ser ainda não estava inteiramente mediado e preenchido pelo simbólico, ele ainda se defrontava com a realidade sensível quase face a face, sem total tradução, apaziguamento ou reflexão. As soluções de problemas concretos equivaliam a criações e engenhos também concretos. Estes, no entanto, à medida que eram produzidos pelo homem, viriam a adquirir sua alma simbólica que se foi inscrevendo lentamente em sua consciência coletiva. O caráter de concretude das coisas do mundo externo gradualmente foi deixando de pertencer ao primado da realidade sensível para situar-se, convenientemente mediado pelo símbolo lingüístico, no âmbito de sua consciência simbólica coletiva, tornando-se assim um todo real cognitivo.

Esse caráter de concretude, essa tangível materialidade do sensível foi progressivamente se convertendo em simbólico, inscrevendo-se e vivificando-se na consciência coletiva através do símbolo lingüístico que encerra em si mesmo o significado.

A ação fonética simultânea deu ares de concreto ao arremedo da verdade sensível e lançou o homem cada vez mais ao sentimento de real ilusão de que estava vivendo a realidade não ilusória.

Entretanto, o caminho já estava aberto e o homem começou a construir o seu próprio mundo sustentado em suas necessidades, interesses e desejos, edificando um universo simbólico complexo na multiplicidade da aparência, porém regido sempre pelas mesmas leis comuns. Criou a sua realidade, isto é, forjou nexos de sentido inteligíveis dentro desse universo simbólico para viver em seu interior e para utilizá-los na convivência com os outros.

Falamos da consciência simbólica coletiva e agora seria oportuno indagar que tipo de relações ela mantém com a consciência individual. De modo idêntico em que há uma relação dialética entre homem e cultura, também encontramo-la na inter-relação entre consciência individual e consciência coletiva.

O sistema de inteligibilidade coletiva ou senso-comum é, como já vimos, um conjunto de referenciais lingüísticos coletivos, ou seja, um reservatório de sentido, de denotação comum de ações, atitudes e, é evidente, do pensar comum. É alguma coisa, digamos, inorgânica e que se encontra fora da consciência individual, consistindo no verdadeiro manancial de referência para significação à consciência individual nascente e em desenvolvimento.

Esse sistema de referenciais lingüísticos consensuais servirá ao conjunto de consciência individuais para a geração de uma consciência maior, viva, expansiva e abrangente, orgânica, por assim dizer, e que é a consciência coletiva. É viva e orgânica porque vem carregada de sentimentos e emoções, de matizes afetivas que a animam e a iluminam, que lhe doam plenitude e calor, perenizando-a com o sopro de humanidade.

A consciência individual produz a consciência coletiva e vice-versa, a consciência coletiva produz, molda e forja a consciência individual.

Deparamo-nos, pois, com duas formas de consciência igualmente ativas e vívidas, igualmente responsáveis e imbricadas pela faculdade de síntese do fator humano, do universo simbólico. Um universo povoado por uma miríade de sentimentos coletivos, de paixões e de êxtases, de ódios e de lutos, de euforias e de tristezas. A consciência coletiva é a palavra estrangulada e o discurso apregoado, a virtude decantada e o pecado desterrado. É um emaranhado dinâmico de sentimentos antagônicos e de ideais coletivos que pairam sobre a consciência individual e que a absorvem mais como num furioso tropel do que como em águas plácidas de um mar calmo. Ou melhor, como nos dois tipos de alegoria referidos, simultaneamente: efervescência e calmaria, turbulência e arrefecimento, imobilidade e movimento

Os grandes movimentos coletivos, as explosivas revoluções, as ruidosas insurreições, as maciças manifestações de solidariedade ou de repúdio surgem-nos como acontecimentos em que as consciências individuais fundem-se em enormes aglomerados de pensar e de sentir comum, ora seguindo a consciência coletiva vigente e estabelecida, ora atropelando-a e se chocando violentamente com ela, procurando incessantemente atingir novas ordens de transcendência.

Os movimentos revolucionários sociais acompanham-se sempre de uma grande expansão da nova consciência coletiva inicialmente em fase de neoformação até que posteriormente atinge e abrange todo o ser social vivo, o âmago da organicidade das instituições, prevalecendo-se e sobrepondo-se a elas, substituindo-as e transformando-as, provocando dessa forma o surgimento de uma nova ordem social. As instituições sociais renovam-se, os significados sociais transmutam-se e vão induzindo, por seu turno, o amadurecimento da nova consciência coletiva. Novos hábitos, novos valores e novos ideais convergirão para a estruturação de uma nova organização coletiva, para a nova institucionalização consensual da nova práxis social. Assim, mais uma vez, repetir-se-á o movimento dialeticamente conjugado entre a conservação estática, a imobilidade proibitiva e a expansão permissiva, o avanço evolutivo dinâmico. Seguir-se-á um período em que a nova consciência coletiva predominará à sombra de um novo senso-comum até que ela mesma se tornará antiga e deficitária, sendo então substituída por uma outra consciência que virá acompanhada de novos significados sociais, de novos ideais coletivos, de uma nova visão do mundo e de uma nova ordem social em uma eterna reprodução do ciclo vital da evolução humana.

 

...

IV - O SÍMBOLO LINGUÍSTICO E SUA DIFERENCIAÇÃO:

Considerando-se o que foi dito no capítulo anterior, poderíamos, como uma primeira indagação, perguntar como tudo aquilo ocorre, não sem antes ficarmos tentados a admitir que aqueles movimentos cíclicos e periódicos são reflexos da estrutura íntima do fator humano qual destino inevitável e incontornável, tal como uma sentença infalível e inadiável que repousa dentro dele mesmo acompanhada de momentos de calmaria e de efervescência.

Pois bem, para atingir as respostas que procuramos, teremos que seguir algumas pistas e evidências que, se por um lado não podem pretender constituir-se em provas de veracidade do que iremos falar adiante, também de outro não invalidam as hipóteses que formularemos. Temos consciência de que o que vamos dizer agora faz parte de uma tentativa de investigação apoiada em bases puramente especulativas devido à escassez e insuficiência de elementos de certeza estabelecidos por uma pesquisa rigorosamente científica, não nos restando, desse modo, outro caminho a trilhar que não seja o das suposições.

Em primeiro lugar, e não sabemos exatamente por que e nem como, a espécie humana foi favorecida por um processo que denominamos hominização, fruto, pelo que conhecemos, de aquisições filogenéticas progressivas correspondentes ao fenômeno de telencefalização. A evidência mais direta e visível que podemos detectar desse fato já estabelecido é o desenvolvimento simbólico humano e as mudanças ocorridas no percurso desse desenvolvimento.

Então temos seguramente a nosso dispor e de modo inequívoco, embora por vezes de maneira pouco clara, o fato de que o surgimento do símbolo lingüístico representou o início da história do homem tal como o conhecemos, e mais, que as mudanças ocorridas em sua estrutura refletiram exatamente todas fases do desenvolvimento sócio-cultural humano.

Tentar elucidar isso da melhor maneira possível, estabelecer correlações entre os diversos elementos envolvidos na questão e daí tentar formular algumas hipóteses viáveis, eis o que poderíamos caracterizar como o propósito central do nosso trabalho.

Pensamos que poderíamos traçar um determinado roteiro segundo o qual a nossa compreensão sobre a evolução sócio-cultural humana se apoiasse sobre o que entendemos abranger os passos fundamentais da formação, estruturação e diferenciação do fenômeno simbólico, isto é, o símbolo lingüístico, eventos esses que propiciaram o surgimento e o assentamento pleno do fator humano.

Quanto à sua formação e estruturação, no Capítulo II já discorremos o bastante e achamos desnecessário repeti-lo aqui, motivo pelo qual empreendemos agora um estudo somente a respeito das etapas de diferenciação do símbolo lingüístico. Infelizmente, não teremos condições de inter-relacionar essas etapas de diferenciação do símbolo lingüístico como os outros dois elementos conceituais importantes para a compreensão do fenômeno como um todo e que foram estabelecidos no Capítulo II: ações habituais e significados sociais. Tal inter-relação, apesar de ser sob o nosso ponto de vista, bastante frutífera e esclarecedora, faria com que ultrapassássemos em muito as dimensões limitadas do presente ensaio. Ainda, torna-se imperioso revelar que estamos trabalhando em condições que estão distantes daquelas consideradas ideais, sem contar com tempo suficiente para a concretização dessa tarefa e privados de uma bibliografia especializada tão extensa como a que se faria necessária para levar a cabo esse intento. Em vista disso, não nos resta outra alternativa senão contentarmo-nos em lançar as idéias gerais e limitarmo-nos a esperar que, no futuro, tenhamos oportunidade de fazê-lo. Por enquanto, o nosso estudo incidirá diretamente sobre o símbolo lingüístico e procuraremos estabelecer algumas correlações axiais entre ele e uma série de exigências empíricas importantes que se nos apresentam.

No capítulo II dissemos que foi na linguagem que o simbólico se constituiu a si mesmo e conseguiu preencher de sentido o sensível, estabelecendo-se como unidade visível e inteligível do processo de comunicação humana. Pois bem, pensamos também que isso ocorreu de maneira muito lenta e gradual e que no início o simbólico só conseguia mediar uma parte do sensível deixando o restante sem tradução e intermediação.

Presumimos que, quando ainda não havia o simbólico, o material oriundo da senso-percepção direta chegava à consciência de uma determinada maneira a induzir, talvez, esboços de imagem e de representações ‘mudas’ capazes se desencadear ações motoras predominantemente automáticas e reflexas. A coisa ou o objeto do mundo externo chegava desse modo à consciência investida de inteira concretude material, com alto ruído e clamor sensorial, porém destituída de significado e de noção, ou seja, em completo silêncio de linguagem. Podemos dizer que, talvez nessa etapa primeva, onde a realidade era vista face a face, tudo era inteiramente ‘consciente’, sem subterfúgios para as emoções e sem lugar para qualquer mera reflexão. A senso-percepção embebia e saturava completamente a consciência, fazia desta um vívido espelho onde eram refletidas diretamente as suas imagens sensoriais.

Com o advento do processo de simbolização, o sensível começou a ser mediado e traduzido lentamente, resultando que o símbolo lingüístico começou a cumprir a sua trajetória desde a senso-percepção rumo à intelectualidade.

Em um primeiro momento, a vertente senso-perceptiva direta ainda não estava totalmente mediada pelo símbolo lingüístico, fazendo com o que o mesmo ficasse envolvido, desse modo, por uma forte aura sensorial que ainda não tinha tradução simbólica, isto é, o objeto percebido se apresentava à consciência carregado de sensorialidade concreta.

Progressivamente, houve um gradual desgarramento dessa aura sensorial concreta ligada ao símbolo lingüístico e ele passou a carregar, em si mesmo, apenas um ligeiro vestígio dessa concretude sensível, passando para o domínio exclusivo do intelectivo, da representação chamada abstrata. Vemos que há uma correlação estreita e direta entre a ascensão telencefálica ou hominização e o caminho percorrido durante o processo de diferenciação e de depuração do símbolo do componente sensorial.

As manifestações psíquicas dos homens primitivos e das crianças fornecem-nos uma série de evidências excepcionalmente claras e que podem servir como exemplos oportunos para ilustrar o que estamos afirmando. O material que vem a seguir foi retirado do livro "Totem e Tabu" (págs. 101 a 105) de S. FREUD (10) que, por sua vez o recolheu de outros autores, principalmente FRAZER. Transcreveremos parcialmente os exemplos que nos interessam e depois partiremos para sua discussão:

"Quando uma aldeia diak sai para caçar porcos selvagens na selva, as pessoas que ficam em casa não podem tocar em óleo nem em água com as mãos durante a ausência de seus amigos, porque, se os fizerem, os caçadores ficarão todos com os dedos escorregadios e a presa se lhes escapará das mãos. Ou ainda, enquanto um caçador gilyak está perseguindo a caça na floresta, seus filhos que ficaram em casa são proibidos de fazer desenhos sobre madeira ou areia, porque temem que se os filhos assim procederem, os caminhos da floresta ficarão tão confusos quanto as linhas dos desenhos e assim o caçador poderia perder-se e nunca retornar ...Um dos procedimentos mágicos mais difundidos para prejudicar um inimigo é fazer uma efígie dele com qualquer material adequado. Que a efígie se lhe assemelhe tem pouca importância: qualquer objeto pode ser transformado numa efígie sua. O que se fizer então à efígie acontecerá também ao original detestado; se alguma parte do corpo da primeira for danificada, a mesma parte do corpo do último ficará enferma. A mesma técnica mágica pode ser utilizada, não apenas com intuitos de inimizade pessoal, mas também com fins piedosos e para auxiliar os deuses contra os demônios malignos". E ainda: "...Da mesma maneira, a fertilidade é magicamente promovida através de uma representação dramática da relação sexual humana. Assim, para tomar apenas um só de um número incontável de exemplos, em algumas partes de Java, na estação em que o arroz logo começará a florescer, o lavrador e sua esposa visitarão seus campos à noite e lá efetuarão a relação sexual a fim de incentivar a festividade do arroz com o seu exemplo..." FREUD considerava em seguida: "...Não pode haver dúvida quanto ao que deve ser encarado como fator operativo em todos esses exemplos. Trata-se da semelhança entre o ato executado e o resultado esperado...".

Se para FREUD, tratava-se da semelhança entre o ato executado e o resultado esperado, para nós trata-se da confusão, da sobreposição entre o significado da coisa e a coisa em si mesma, comum em estágios de desenvolvimento psíquico mais primitivo. É evidente que não podemos ignorar e nem subestimar a importância do desejo como o elemento impulsionador para a obtenção do resultado esperado através de uma ação que se lhe assemelhe, porém temos que considerar que eram esses os recursos disponíveis ao homem primitivo para que procurasse agir efetivamente no mundo externo, modificar o seu curso, proteger-se ou prejudicar os seus inimigos e tentar dominar a natureza a seu modo. Trata-se de concepções mágicas investidas de uma convicção subjetivas de certeza quanto aos resultados desejados, de se poder, por exemplo, agir à distância, telepaticamente , sem obstáculo ou impedimento de qualquer ordem, sem solução de continuidade entre a representação simbólica da coisa e a coisa em si mesma. Há uma espécie de nivelamento entre as duas categorias fenomênicas referidas, desde que o desnivelamento, isto é, o desgarramento senso-perceptivo do simbólico, irá propiciar a separação dessas duas dimensões e o surgimento da verdadeira dualidade configurada entre o senso-percepção e a intelectualidade.

No Capítulo II vimos como, atrav&eacut