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PSICOPATOLOGIA DA CLÍNICA COTIDIANA

Depois de mais de duas décadas de trabalho clínico através do atendimento de incontáveis casos psiquiátricos, seja de pacientes internados ou daqueles que me procuraram e que me continuam procurando no consultório, atualmente considero extremamente útil a elaboração de um referencial teórico – além daqueles já existentes – que venho tentando aperfeiçoar e estabelecer ao longo de todos esses anos. A psiquiatria é, dentre todas as especialidades da medicina, aquela que requer, exclusivamente, grande sensibilidade de registro e aprimorado raciocínio clínicos para a formulação do diagnóstico. Por isso mesmo, talvez se constitua na especialidade médica mais intrincada e árdua, levando-se em conta, ainda, certas dificuldades sociais e institucionais inerentes à sua prática.

Os últimos dez anos de minha vida profissional têm sido marcados por atividades acadêmicas que exerci, primeiramente na Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais e por último na Universidade Federal de Minas Gerais, mister que continuo exercendo com muito prazer junto àqueles que estão esboçando os seus primeiros passos no terreno da medicina e da psiquiatria. E foi justamente com meus alunos, por ocasião das discussões e supervisões de casos clínicos ou, mesmo, na preparação de aulas teóricas, que meus apontamentos e reflexões clínicas coligidos ao longo do tempo passaram a inspirar a formação e o estabelecimento de novos modelos e arcabouços conceituais que se pudessem mostrar úteis na prática médica do dia a dia. Hoje, creio que já posso oferecer àqueles que se interessam pelo estudo da psiquiatria alguns conceitos teóricos que podem facilitar um pouco a sua prática, em princípio tão complexa quanto fascinante. Assim, partindo de uma espécie de meta-psicopatologia, cheguei a alguns conceitos teóricos úteis como, por exemplo, os transtornos psicóides, filtro caracterológico e desdiferenciação simbólico-afetiva, dentre outros, noções teóricas cuja funcionalidade prática me tem sido assegurada, frequentemente, por um bom número de colegas.

Desse modo, acredito que esses textos, sob a forma de uma verdadeira psicopatologia da clínica cotidiana, poderão proporcionar ao profissional e ao estudante de psiquiatria elementos de reflexão teórico-clínica capazes de enriquecer sua visão dos transtornos psiquiátricos e de flexibilizar sua conduta terapêutica de maneira geral. É a eles que dedico esses trabalhos e, caso consiga pelo menos parte desse propósito, considerarei cumprida minha tarefa.

G.F.J.S.

Agosto de 1999